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A morte no apartamento, as andanças e as festas depois do crime; polícia monta o quebra-cabeça

Primeiras imagens dos suspeitos de assassinar o cabeleireiro, subindo as escadas para irem ao apartamento da vítima. Foto: Divulgação

Saindo quase que de pressa do apartamento de Dionatan Francisco na madrugada daquela sábado, o casal desce as escadas do pequeno prédio localizado na José Loureiro, no Centro, colocando as roupas, sem os calçados e carregando duas bolsas. Em seguida, o menor de idade Renan (nome fictício), sobe as escadas novamente para pegar a chave da porta, que foi trancada pela vítima ao ir receber a dupla. Em seguida, conforme comprova sua versão e o vídeo divulgado pela polícia, ele retorna e os dois vão embora.

Depois disso, a polícia precisou montar o quebra-cabeça para entender a dinâmica do crime, já que nenhuma câmera externa flagrou o momento e o rumo dos dois. A pé, eles caminharam cerca de 300 metros até a praça central de Gravataí, em frente a prefeitura. Lá, pediram um aplicativo – informação confirmada nos dois depoimentos.

Renan e Felipe não conseguiram corrida devido ao horário e resolveram pegar um ônibus. Foi então que dentro do coletivo começaram a conversar sobre as versões do crime. Conforme a polícia, a dupla ficou rodando até irem para a casa de uma amiga de Felipe, que residia em Cachoeirinha. A essa altura, as chaves do apartamento de Dionatan teriam sido deixadas na praça central da cidade. Em alguns pontos, os depoimentos se divergem, entre a faca utilizada no crime ter sido descartada em uma rede de esgoto, já em Cachoeirinha, em outro versão do crime, ter sido deixada em Porto Alegre, em um local não especificado, durante a andança da dupla.

Dentro do apartamento

Felipe, de 18 anos, que foi o primeiro a prestar depoimento, se apresentou de forma voluntária após ter recebido orientações de membros de uma ONG LGBT na qual frequentava. Ele foi trazido de Porto Alegre até Gravataí para ser ouvido, e liberado – já que o judiciário não havia expedido seu mandado de prisão preventiva. Com convicção respondeu as perguntas feitas pelo policiais, que pediram explicações sobre as motivações.

Conhecendo Dionatan por um aplicativo na noite do crime, eles marcaram de se encontrar na madrugada no apartamento da vítima. Felipe contou que chegou ao local e pediu para tomar um banho. Em seguida, quando saiu do banheiro, que fica de frente para o quarto, viu Dionatan agredindo seu companheiro, Renan. Em luta corporal, ele relatou que viu uma faca ao lado da cama de Dionatan, quando deu o primeiro golpe.

Em seguida, a vítima conseguiu pegar a faca da mão de Felipe, indo para cima do adolescente, que empurrou a vítima ao solo. Neste momento Felipe relatou ter retomado a faca e desferido mais dois a três golpes contra Dionatan, que ficou estendido no chão.

Foto: Apartamento da vítima ficou com as marcas do crime. Foto: Polícia/Divulgação

Adolescente dá detalhes

Com o depoimento de Felipe transcrito e com sua prisão preventiva decretada durante seu depoimento, lhe foi dada a voz de prisão. A polícia aguardava a apresentação do adolescente, que ocorreu na manhã desta última quarta (15). Sem nada em seu desfavor, Renan aguardou ser chamado na sala de espera da Delegacia de Homicídios.

Pessoas que estavam ali, também aguardando para depoimentos relacionados a outros casos, comentavam sobre o assassinato brutal do cabeleireiro, e o suspeito permanecia quieto, com um capuz como quem estaria escondendo o cabelo descolorido – peça-chave para sua identificação durante a investigação.

Conforme o delegado Eduardo do Amaral, o depoimento de Renan divergiu com o de seu companheiro, e condiz com a dinâmica que a polícia suspeitava, desde as marcas de sangue no chão do apartamento, até as diversas facadas que a vítima recebeu.

“Ele contou que a faca estava sob a mesa, e que viu Felipe dando uma facada nas costas do Dionatan. Em seguida, a vítima foi empurrada por Renan deixando cair a faca que havia pego do Felipe. Nisso ele conta que o Felipe pegou novamente a faca e começou os golpes. Renan pediu para ele parar, já que a vítima não esboçava reação, mas ele não parou e continuou a esfaquear Dionatan.”, destacou o delegado, que participou da oitiva do adolescente.

Perguntado, os dois negaram realção sexual com a vítima antes do crime, e atribuíram sua atitude devido ao consumo de entorpecente no apartamento. “Eles relataram que chegaram e viram a vítima consumindo cocaína, que estavam em três pinos, em cima de um prato, ao lado da cama. O adolescente também relatou que reclamou para o seu companheiro da atitude de Dionatan e queria ir embora do apartamento”, relatou o delegado.

As festas

Com a divulgação das imagens, amigos próximos dos acusados desconfiaram e começaram a perguntar sobre o fato. Foi então que eles procuraram abrigo em casas de amigos, já que sabiam que poderiam ser facilmente localizados em suas residências. Conforme a investigação, Felipe fugiu para Porto Alegre e percorreu as ONGs e centros LGBTs no qual conhecia. Além disso, ele contou que dois dias daquele semana, que sucedeu o crime, ele foi para duas festas; informação que foi confirmada em depoimento.

Uma delas seria uma casa noturna na cidade baixa. A outra, teria sido em Alvorada. Renan alternava entre a casa de amigos e a sua, já que seu pai havia desconfiado. Foi então que ele resolveu contar ao pai o que de fato estava acontecendo. O responsável quis apresentá-lo na delegacia, mas sem nada contra ele seria em vão. A essa altura, um áudio que circulava pelas redes sociais mostra Felipe confessando o crime, e citando o adolescente. Em alguns trechos, Felipe a a outra pessoa na linha dão risada do acontecido.

Os indiciamentos

Para o delegado ficou claro o crime deixou da legítima defesa para um homicídio. “Pelos relatos, pelas testemunhas e pelos depoimentos oficias dos acusados identificamos que pode ter ocorrido sim uma desavença no apartamento, mas que em seguida saiu do controle. O depoimento do Renan nos dá uma base de que a vítima foi brutalmente golpeada, o que deixa claro que não foi uma legítima defesa. Muito longe disso, são mais de nove golpes na vítima. Além disso, eles ainda encobrem o corpo, roubam objetos e vão embora”, destacou o delegado que vai indicar Felipe por homicídio e furto, ambos qualificados.

Renan, com 17 anos, pode ter contra si um pedido de internação feito pela polícia, mas que ainda não havia sido aceito pelo judiciário, que informou estar analisando melhor a situação. Depois do depoimento ele foi liberado e aguarda o pedido.

Felipe foi o primeiro a se apresentar. Ele teria sido o autor das facadas. Foto: Giro de Gravataí/Especial

Crime revela a vulnerabilidade 

Além do homicídio, a vulnerabilidade e a utilização de aplicativos para relacionamentos chamou a atenção do delegado. “Me chamou muito a atenção. É uma troca frequente de parceiros, e que marcam encontros por aplicativos e vão para qualquer lugar. No caso do Dionatan eles se conheceram naquela noite e marcaram para se encontrar na madrugada. Nos dois depoimentos ficou claro que eles se relacionavam muito assim, indo para casas, apartamentos de quem nem conheciam, de pessoas que poderiam ser fakes, criminosos, que visam praticar delitos. Além disso tudo, ainda ficam propensos ao consumo de drogas. É uma situação bem complicada”, finalizou Amaral.

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