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Padre Fabiano | Sobre o documentário Democracia em Vertigem

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Filme que retrata todo o processo de impeachment de Dilma Roussef até a eleição do Presidente Jair Bolsonaro. Foto: Divulgação

Passada a entrega do Oscar, no último dia 10, penso que é chegada a hora de comentar sobre a participação brasileira na cerimônia, com o documentário “Democracia em Vertigem”, da cineasta Petra Costa, e que retrata todo o processo de impeachment de Dilma Roussef até a eleição do Presidente Jair Bolsonaro. Nada comentei antes porque tenho refletido que é preciso deixar passar o evento para que, de longe, se possa dar uma opinião mais sólida. Opinar no calor do momento, pode nos levar a conclusões precipitadas.

Eu assisti o documentário, e o que vi? Petra Costa não escondeu em nenhum momento a sua orientação ideológica, o seu pensamento. Para ela, e isso está claro desde o início, Lula é uma espécie de herói nacional, o trabalhador colocado na Presidência da República pela classe operária cansada dos desmandos dos patrões, Dilma Roussef, sua sucessora, foi vítima de um golpe perpetrado pelas elites, e Jair Bolsonaro é um fascista! E considero esse um grande mérito do filme, não porque eu concorde com a tese, mas porque não tenta em nenhum momento esconder nem maquiar seu pensamento. É um documentário claro e honesto, inclusive quando mostra sua decepção pelo fato de Lula, logo após ter sido eleito, ter feito aliança com as elites que combatera durante décadas.

O documentário, todo narrado pela própria Petra, mescla a história familiar da autora com a história do Brasil, utilizando imagens do acervo pessoal da família – o que muito me agrada, a microhistória mesclada com a história universal. Ela não mascara o fato de ser neta de um dos fundadores da Andrade Gutierrez, uma das empresas citadas na Operação Lava Jato. Petra também teve mérito por não esconder sua própria história. A autora e diretora narra todo o filme com uma gravidade tal que, muitas vezes, temos a impressão de estarmos no Apocalipse iminente, o “Judgement Day”. Claro que tal forma narrativa foi proposital, uma vez que ela considera que, no atual momento político do país, a democracia corre sério risco de acabar. A voz monotônica e grave em muitos momentos torna a narrativa maçante. Contudo, ainda considero um filme de qualidade que procura mostrar a história recente do Brasil. Vale a pena assistir.

Desde seu lançamento, as redes sociais foram inundadas com elogios de um lado, e xingamentos do outro. No domingo à noite ainda, mais uma enxurrada de comemorações e lamentações exacerbadas, de um lado como se o Brasil tivesse sido salvo, de outro como a cultura e a arte brasileira tivessem sido relegadas a segundo plano por questões ideológicas. Prefiro, como o filósofo Aristóteles, o caminho do meio. Penso que o que está em vertigem no Brasil não é a democracia – essa talvez nunca esteve sólida – mas o diálogo. Não debatemos mais ideias, debatemos pessoas, rotulamos, bloqueamos, anulamos, por pensarem diferente de nós. Mas isso é assunto para uma próxima coluna.

Fabiano é bacharel em História pela PUCRS, Mestre em Teologia pela PUCRS, Agente de Pastoral na Rede São Francisco e Pároco da Paróquia Nossa Senhora das Graças.