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Rodrigo Westeuser | O museu de lá e o museu de cá

Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista | Foto: Agência Brasil

Quando liguei a televisão, já no final de um domingo chuvoso e modorrento, me deparei com as imagens de um Museu Nacional em chamas, já completamente consumido e devastado pelo fogo. Nem hesitei. Desliguei no mesmo momento e não quis pensar muito sobre a amplitude da tragédia. Fui lavar uma louça.

Minha última visita ao Museu Nacional foi em 2015, numa ida relâmpago ao Rio, a trabalho. Contava com uma tarde livre e estava hospedado no centro da cidade, cerca de cinco quilômetros da Quinta da Boa Vista. Sou fã dos museus e centros culturais. Obviamente que me joguei para o Museu Nacional. Chegando lá, dia de entrada franca. Que sorte. Tive pouco tempo. Lamentei não ter podido passar um dia inteiro, vários dias, quiçá, desbravando aquela complexidade toda.

É dispensável falar da importância do acervo reunido pelo museu, que foi ricamente presenteado por D. Pedro II, um homem de grande erudição e que mantinha uma relação muito próxima e de muita paixão com a cultura e a memória.

Antes de olharmos para o grande museu do Rio de Janeiro, antiga capital federal, olhemos para os museus da nossa capital Porto Alegre. Vários já fecharam, tantos outros se encontram parcialmente fechados, com imensas dificuldades de orçamento, de mão-de-obra, correndo sérios riscos de queimarem como vimos acontecer, fatidicamente com o Museu Nacional.

E não podemos esquecer que Gravataí também já viu seu museu queimar. Em setembro de 1997. Foi perdida parte importante do acervo e nunca mais se reformou o prédio histórico, tampouco se investiu na guarda da memória e patrimônio histórico-cultural do município adequadamente.

Outro dia passei pelo centro de Gravataí e o museu estava fechado. Quinta-feira, como qualquer outra. Conversando com um amigo, me disse que esteve no museu ainda essa semana e que ele estava “a meio pau”, parcialmente funcionando.

Não há outra explicação para esse total descaso com a memória senão a de que se trata de um projeto. Povo que conhece seu passado tem subsídios para escolher melhor seus caminhos futuros e isso é muito perigoso para quem está no poder, indiferente se na esfera federal, estadual ou federal. Educação, memória, cultura, conhecimento, liberdade e autonomia de pensamento, para quê? Para quem?

Mas Gravataí anunciou os melhores números da educação na história!

Sim. Números irrisórios, pífios, dentro de um universo sucateado, de escolas que clamam por ajuda, de espaços de tutela da memória e da cultura sendo fechados, surrupiados para outros fins – até para virarem sucata e estacionamento dos servidores da prefeitura, como no caso do Cine Teatro Municipal de Gravataí.

A situação é triste. E não se trata de dinheiro, apenas. A crise é mais ampla do que apenas econômica. A crise é institucional. E de vergonha na cara também. Quando a tragédia acontece, ainda é utilizada para angariar capital político-eleitoreiro. Promessas de verbas, discursos panfletários. Como sempre.

Agora, o que nos resta é lamentar, como verdadeiras viúvas, sobre as cinzas e os despojos. Do museu que queimou. Dos museus que já haviam queimado. E dos museus que ainda queimarão e consumirão mais dos nossos passados, das nossas histórias.

Infelizmente.


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