Nando Rocha: Quando tudo o que temos é um amigo



Foto: Reprodução Google imagens

Era uma tarde de inverno, de frio rigoroso como fez essa semana. Faz três, quatro anos. Eu estava em uma mecânica aguardando para acertar o pagamento de umas peças do carro. O barulho ensurdecedor de um dos equipamentos me fez ir para a rua. Essa cena ocorre no Parque dos Eucaliptos, atrás do terreno das Tintas Renner.

À minha frente, uma casa improvisada de papelão e lona, e dois cachorros sentados simetricamente próximos à calçada. Um latão serrado ao meio com fumaça, possivelmente havia sido utilizado para assar alguma coisa. Entre os dois cachorros, um senhor de chinelos de dedo, uma calça de abrigo curta e um casaco fino. Eu sentia frio só de olhar para ele. A expressão cansada, a roupa, as bugigangas que circundavam a sua barraca localizada em cima da calçada transmitiam a impressão dele dormir ali. Nunca tive certeza. Fez carinho nos dois cachorros, levantou novamente e tirou algo de dentro de um saco plástico transparente.

Parecia um pão. Pela distância eu não tive precisão. Os cães, mesmo que, muito provavelmente, também estivessem com fome, não fizeram nem menção de avançar na comida. Apenas olharam estáticos, e ensaiaram uma balançada discreta com o rabo. O homem desenrolou o plástico e partiu aquela comida em três pedaços. Serviu a cada um dos dois cães, gesto precedido de um afago no pescoço, e logo depois comeu a outra terça parte. Sabe-se lá a fome que este homem não estava. O frio. O cansaço. E ele dividiu a sua única refeição com os dois cachorros.

Eu passei ali mais algumas vezes após esse dia, e os cachorros seguiam lá, frio, chuva, sol, dia, tarde ou noite. O homem podia ter comido aquele pão sozinho e saciado a sua fome. Os cães podiam partir e encontrar abrigo em uma casa que lhes dessem comida em abundância e um cantinho quente. No entanto, nenhum deles parecia considerar uma hipótese dessas. Nessa semana celebramos o Dia do Amigo.

Essa cena, para mim, significa a cumplicidade e autenticidade de uma verdadeira amizade. Eles tinham apenas aquilo. Os cachorros não precisavam do homem para viver, tampouco o homem precisava dos cachorros, mas o amor e a amizade com que se tratavam, bastavam para se tornarem indispensáveis uns para os outros. Que possamos, ao longo das nossas vidas, cultivar amizades que estarão ao nosso lado mesmo quando nada mais fizer sentido. Que estarão conosco mesmo quando o máximo que podemos oferecer são migalhas. Porque mais importante que ter amigo, é ser amigo.


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