Nando Rocha: Os restaurantes e funerárias da parada 79

Gravataí é, mesmo, uma cidade única. Vocês já pararam pra pensar que, no mesmo lugar, há um cluster – agrupamento de empresas do mesmo setor – do ramo alimentício e funerário? Eu estava almoçando na parada 79 esses dias e notei o pessoal chegando nos bons restaurantes do local em pequenos grupos de amigos. Descontraídos, sorridentes, confraternizando. Até que uma cena me chocou, justamente, por ser controversa àquele ambiente. Desceu do carro dois jovens amparando uma senhora idosa, chorando copiosamente, adentrando o espaço de uma das tantas funerárias da famosa Rua Nestor de Moura Jardim.

Enquanto muitos comemoravam, confraternizavam, pelo menos em duas funerárias próximas havia velório, choro, dor. Chega a ser tragicômico. Eu mesmo, já almocei, jantei, comemorei, chorei e velei pessoas queridas na mesma rua. Na verdade, pensando bem, a 79 resume um pouco da nossa vida. A efemeridade e intensidade de momentos distintos. Num instante podemos estar brindando com os amigos, comemorando mais um aniversário, datas especiais, conhecendo pessoas que se tornarão importantes, no outro, podemos estar nos despedindo de alguém, chorando de saudade, de remorso, de dor.

A vida percorre um caminho esburacado de linha tão tênue quantos as atividades que a 79 nos oferta. O brinde e a dor, a comemoração e a despedida, o início e o fim, andam tão próximos que é como se fossem vizinhos de porta, de rua, de bairro. Num dia estamos comemorando, no outro, chorando. O mundo segue. No amor e na dor. As pessoas que estão brindando seguirão brindando, as que estão chorando seguirão chorando. O que nos resta é aproveitar enquanto estamos dentro dos restaurantes da vida, enquanto ainda estamos acompanhados de quem gostamos. Para atravessar a rua basta um piscar de olhos.


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