Nando Rocha: O inverno está de atestado

Foto: Google | Divulgação

Eu lembro quando era criança e batia o mês de maio. Ia dormir na casa da minha vó. Era tão frio que ela dispensava o banho dos netos e passava álcool nas nossas axilas e pescoço (devidamente escondido dos nossos pais). Não sei até onde se isso funcionava, mas era uma maneira de encarar o popular frio de renguear cusco que fazia no tradicional inverno gaúcho.

Eu lembro que o frio tinha dois estágios. O médio, onde a mãe colocava pijamas por baixo do abrigo do colégio, e o forte, onde, além do pijama por baixo do abrigo, havia o reforço de uma calça de lã. Era obrigatório o uso de manteiga de cacau para não queimar os lábios do vento gelado intenso que assolava o sul do país.

Eu tinha um par de luvas cinza que usava durante todo o inverno. Estava na 8ª série. Era apaixonado por uma colega. Sempre tive uma imensa dificuldade em abordar as meninas que eu gostava. Um pouco pela timidez, outro tanto por parecer o Fido Dido, aquele personagem criado para as propagandas da Pepsi na década de 90. Magro, esquálido, orelhudo, cabelos arrepiados. Mas aquele dia ela passava frio. E eu tinha um par de luvas. Aparentemente, todos os recursos necessários para uma abordagem certeira. Não tive sucesso, mas ela usou as luvas durante a aula e eu não queria mais lavar depois. Ficou com o perfume.

Tudo isso para dizer que usávamos luvas. Com ou sem perfume. E não era raro. Usávamos toucas de croché, mantas. E eu não poderia deixar de lembrar que o inverno de junho, julho, agosto, nos fazia tirar do roupeiro pulôver’s e japonas. Blusões de gola olímpica. Botas de galocha, algumas, peluciadas. Era uma espécie de armadura para o frio. Éramos pequenos soldados no fronte de batalha enfrentando um frio de rachar.

Alguém lembra de passar frio esse ano? De conversar com um amigo na rua e sair aquele vaporzinho gelado da boca? Exceto um ou outro dia, pontos fora da curva, vivemos uma extensão da primavera, alguns dias, submergidos do calor de derreter dos veranicos de maio, e, agora, de junho, de julho, agosto. Aquecimento global? Mudanças climáticas? Prenúncio de um calor ainda mais intenso? O fato é que o inverno passou 2017 de atestado.


Escreva um comentário

ver mais comentários  

Your e-mail address will not be published. Also other data will not be shared with third person. Campos obrigatórios marcados como *