Nando Rocha: Eu balançava minha filha para dormir



Quando nasce o seu filho e vêm aquelas tradicionais visitas de boas-vindas, é perceptível identificar olhares escandalizados se você decide, entre um chorinho desconfortável e outro, embalar o bebê pra dormir. Alguns não se contêm: “papai, mamãe, não balance! Depois eles se acostumam e não tem como tirar”. O primeiro sentimento a que se é acometido é a culpa. Depois, seu inconsciente cria um cenário eterno e em uma fração de segundos você se imagina no intervalo da faculdade chegando esbaforido, estacionando o carro fora do local permitido, para dar uma embaladinha na filha de 24 anos que quer tirar um soninho entre dois períodos.

Outro dogma é o deixa-chorar-no-berço-até-dormir. Você que tem filho já deve ter ouvido isso um bocado de vezes: “não coloca balda! Eles precisam se acostumar a dormir sozinhos. Uns minutinhos chorando no berço não fazem mal a ninguém”. Instantaneamente, o seu pensamento percorre 35 anos e você se vê em meio à família da sua filha (no meu caso), todos na mesma cama, você abraçado nela, secando as lágrimas, com a mamãe sentada no pé da cama cantando ursinho pimpão até fazê-la dormir. Então os dois se despedem com um beijo na filha, no cachorro, nos netos, no genro, o deixam dormindo e saem pé por pé (quem tem filho sabe o que é ser um ninja astuto e sair pé por pé do quarto colocando um dedo de cada vez no chão).

Ouvimos isso com a Lauren várias vezes. E sei que ninguém fala isso por mal. Querem o nosso bem. Entendem que pode ser prejudicial para o bebê. Mas, gente, embalar, fazer dormir, dura tão pouco, mas tão pouco, que não vale a pena educar na marra à base do choro. Eles são dependentes de você. Essa ruptura de independência ainda não é necessária. Os anos vão passar e eles não vão te ligar em meio ao intervalo do trabalho pra você correr e embalar pra fazê-los dormir, tampouco estarão em um acampamento com amigos e vão te ligar à noite e fazer todo mundo sair das barracas em silêncio pra você cantar ursinho pimpão.

Quando a Lauren era pequena, gostava de deitar no meu braço com as perninhas balançando e a cabecinha na palma da minha mão pra acalmar. E eu fiz isso sempre que ela pediu choramingando. Hoje, nem que eu quisesse, conseguiria. Ela já quase nem cabe mais no meu colo. E eu já estou morrendo de saudades daquela época. Com o passar do tempo, essas manias viram marcas de amor e afeto na personalidade deles. A natureza se encarrega de deixá-los independentes ao seu tempo e um dia vamos precisar aceitar isso. O amor é maior que qualquer dogma. Ame-os conforme eles precisam.


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