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Exclusivo | O que revelam as investigações das tentativas de sequestro de crianças

É normal que uma mãe ao ler uma reportagem sobre as tentativas de sequestro de crianças fique preocupada. O problema se agrava e gera pânico quando os casos são registrados na cidade aonde ela reside. Em Gravataí foram realizados seis registros policiais da mesma natureza. A situação alertou a comunidade, as escolas e a investigação da Polícia Civil que analisou os casos registrados – alguns ainda em processo investigatório.

Embora nenhum caso tenha sido consumado, a polícia trabalha ainda com algumas linhas de investigação, já que alguns apresentam pontos de veracidade, outros foram apurados e confirmados ser situações de calúnia e difamação por conta de desavenças e até desacordos comerciais. O Giro de Gravataí refez a ordem de registros e levantou os detalhes da investigação.

O primeiro foi feito no dia 01 de outubro quando uma mãe relatou ter sido atacada por uma mulher (loiras, cabelos lisos) acompanhada de um homem em um veículo escuro que desferiu golpes de faca contra ela, pedindo para que a mãe entregasse a criança. A jovem, em depoimento, informou que conseguiu se desvencilhar e procurou ajuda. Ela registrou ocorrência e a polícia começou uma investigação.

A calúnia

Não demorou muito para que uma segunda ocorrência fosse registrada envolvendo as supostas tentativas. Na verdade, no outro dia, 02 de outubro. No entanto, a ocorrência foi feita por um aposentado que teve seu automóvel divulgado nas redes sociais com o veículo que era utilizado para raptar as crianças. A investigação apontou que o homem de 64 anos foi vítima de calúnia nas redes sociais.

Em depoimento, ele também relatou que um homem chegou a ir até sua residência após puxar seu endereço pela placa do veículo que estava sendo divulgada. A polícia identificou algumas pessoas responsáveis por divulgar as fotos e outras por replicar o conteúdo em grupos de Facebook e WhatsApp.

Pânico já instaurado

Com um registro feito e um suspeito – o idoso vítima de calúnia, mas que até o momento era alvo das redes sociais, uma série de outras informações e ‘fake news’ começaram a ser disparadas. Áudios em grupos de Whatsapp contavam as motivações para as tentativas de raptos de crianças, que iam de tráfico de órgãos até os casos de magia negra. Outros ainda davam detalhes de como o suposto casal agia.

Não demorou muito para que as falsas informações se agravassem e começassem a ser espalhadas com fotos de suposto sequestradores. Imagens e prints das redes sociais de líderes religiosos, bruxos e até vendedores de livros foram circulando e intensificando o pânico na cidade. O ‘desserviço’ feito pelos que compartilhavam as informações dificultavam o trabalho da polícia, que monitorava as prisões da Brigada Militar (BM) e investigava a motivação das supostas tentativas.

Sobrou até para os assaltantes

Conforme informações extraoficiais, na semana em que os casos tomaram grandes proporções, a BM atendeu diversos chamados de supostas tentativas. Muitos dos casos eram assaltantes que aguardavam as vítimas para cometer crimes, mas que foram denunciados por moradores que ligavam para o 190 informando da atitude suspeita do veículo, que segundo os comunicantes, estariam em atitude esperando aparecer alguma criança para sequestra-la.

“Fizemos algumas prisões no entorno de escolas. Assaltantes e até estelionatários que estavam esperando as vítimas foram denunciados e presos. Só que todos se tornavam suspeitos dos sequestros. Era sempre esse o motivo das ligações que chegavam no batalhão”, contou um policial militar.

Mais casos

No dia 17 um outro caso foi registrado também na 2° DP. O “modus operandi” relatado pela vítima era semelhante ao registrado em outras ocorrências, o que acabou por intensificar o trabalho de investigação dos agentes daquele delegacia. Com a filha no colo a mãe relatou na época ao Giro de Gravataí que caminhava pela rua, no bairro Parque dos Eucaliptos quando o casal parou o veículo e tentou pegar a criança de seus braços. O carro também seria semelhante ao registrado em ocorrências anteriores e a mulher e o condutor mantinham as mesmas características. O caso ainda é investigado.

Ao longo daquela semana outras ocorrências foram sendo registradas. A loira já aparecia com cabelos escuros. Os veículos teriam mudado o modelo e a cor, levantando suspeitas sobre a veracidade de alguns dos registros, ponto que também alertou os agentes para algumas ocorrências sem fundamento. Imagens de câmeras de segurança de alguns locais confrontaram alguns depoimentos e até alguns registros já que não condiziam com a narrativa e a dinâmica relatada pelas vítimas. 

O rapto dos cinco bebês 

Em um dos registros uma mulher relatou que foi vítima de um rapto de crianças por parte de sua vizinha. No entanto, em seu depoimento ela informou que estava grávida de sete bebês e que seis deles foram roubados de dentro de sua barriga. Em seguida, no “BO”, ela informa que cinco apenas teriam sido roubados, mas de cima da cama. O caso chamou a atenção da polícia que já não procurava só o possível casal, mas ampliava sua linha de investigação para um “outro lado da coisa”. 

A única suspeita era inocente 

No dia 26 de outubro uma mulher, moradora da Morada do Vale, havia sido conduzida para a delegacia após policiais cumprirem um mandado de busca e apreensão em sua residência, já que ela era suspeita de ser a mulher responsável pelas tentativas de sequestro de crianças. Agentes recolheram diversos objetos, livros e um Notebook. No entanto a investigação apontou que ela era inocente. A mulher de cerca de 50 anos teria tido um desacordo comercial e foi apontada através de denúncia como a responsável pelas tentativas em Gravataí e Cachoeirinha. 

Sem nenhum caso consumado e nenhuma pessoa suspeita, a polícia continuou a investigar. Desde a prisão da mulher Gravataí não teve mais nenhum registro em ambas as cidades, reforçando que alguns dos casos foram registrados em decorrência de desacordos comerciais e brigas conjugais. 

“Alguém pode ter se aproveitado desse caos”

“Desde o primeiro caso investigamos a fundo. Começava a nos chamar a atenção desde o princípio que nenhuma câmera de segurança flagrou o veículo citado, muito menos o casal. Alguns dos casos foram constatadas versões distorcidas, com outras características que a investigação descobriu, e posterior, foi confessado que tratava-se de desacordos, brigas entre marido e mulher e que acarretavam na divulgação e boataria”, disse o delegado Rafael Sobreiro. 

Embora Sobreiro entenda o pânico das mães, ele avaliou como desproporcional o medo empregado em Gravataí e que em nenhuma das situações registradas a autora teria conseguido levar as crianças. “Chamou a atenção da investigação que nenhum fato foi consumado. Parece que tentavam pegar do colo das mães de forma superficial sem empregar muita força. Quem sai com a intenção de roubar, rouba”, completou o delegado. 

Sobreiro finalizou destacando que a investigação segue coletando informações para concluir os inquéritos abertos a partir dos registros, embora alguns já tenham sido desmentidos. “Gravataí não tem histórico destes casos. Nessa história pode ser que alguém tenha se aproveitado do caos para tirar o foco de alguma investigação. Estamos investigando”, finalizou Sobreiro. 

Extra

Pelo menos dois casos ainda são investigados pela polícia. 

Polícia já identificou no minimo três mulheres que divulgaram notícias falsas nas redes sociais. 

Desde a notícia da condução da suspeita dos raptos, nenhum outro registro foi feito nas delegacias de Gravataí e Cachoeirinha. 

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