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A madrugada em que três leoas escaparam do circo e andaram por Gravataí

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 Gravataí do Passado é um quadro criado pelo Giro de Gravataí para apurar situações, desmentir boatos e contar a verdade sobre fatos rumorosos que fizeram parte da história da cidade e da região. Você conhece algum? Nós vamos apurar. 

Gravataí do Passado – Era inicio de madrugada. No Fusca da Brigada Militar (BM), o Sargento Luis Antônio Lacerda era o responsável pelo efetivo da noite e patrulhava as principais avenidas da cidade, já que na pacata Gravataí, entre 1985 e 1988, data que o sargento recorda como época do caso a ser contado, foi chamado para uma ocorrência através do 190 nas imediações do centro.

Esperando por mais um acidente de trânsito ou então uma confusão “arrumada” pelos beberrões da madrugada, Lacerda se viu em uma ocorrência bizarra, e tão pouco macabra. Com um forte neblina naquele início de madrugada, ele se deslocou até a Rua Angelino Loranzi, o lado do Parcão de Gravataí. Não demorou muito para que ele e seu ‘praça’ (jargão policial) se deparassem com uma cena insólita.

O sargento aposentando Luis Antônio Lacerda foi o responsável pela ocorrência. Foto: Giro de Gravataí/Especial

Três leoas do então instalado na cidade, Grand Circo Mexicano, estavam soltas, e agressivas, atacaram a viatura dos policiais. Próximo da jaula aonde os felinos estavam, dois pôneis e um cavalo do circo já haviam sido devorados pelos animais. Ainda dentro da viatura, com revólveres em mãos, os policiais esperavam o melhor momento para sair, já que mesmo fora, não teriam muito o que fazer.

Já adentravam à madrugada quando o domador das leoas, identificado em uma reportagem como Élvio Cordeiro de Oliveira, na época com 28 anos, subiu em cima da jaula dos animais na tentativa de atraí-los para dentro do confinado, mas não teve sucesso. “Nessa altura já estávamos no meio da madrugada. As leoas estavam raivosas, tudo o que se movia, elas atacavam. Vinha subindo um fusca pela Dorival no sentido centro/bairro que também foi alvo de uma das leoas. Sorte é que o motorista estava em uma velocidade razoável, conseguindo escapar”, lembra o sargento.

Contatos em vão

Mesmo sem lembrar da data em específico, Lacerda ainda resgata a madrugada gelada e perigosa que viveu com o recruta. Com a andança das leoas no entorno do Parcão e pelas imediações do Fórum, eles precisavam ser rápidos, já que no amanhecer daquele dia, uma tragédia poderia ocorrer. Élvio, com um chicote em mãos, tentava intimidar os animais para que eles não fugissem do perímetro do circo e fossem parar no centro da cidade. A essa altura, sob o comando de Lacerda, um bloqueio com veículos tentou ser feito em saídas das ruas próximas, afim de evitar a fuga.

Reprodução – Giro de Gravataí/Especial – Foto: ZH

O primeiro contato foi feito com o Corpo de Bombeiros de Porto Alegre, já que Gravataí não contava com um batalhão. “Primeira coisa que pensei foi ligar para os bombeiros. Quando atenderam, não acreditaram na ocorrência. Quando expliquei a situação, disse que precisávamos de uma rede para capturar as feras, mas avisaram que não tinham. Então pensei em uma segunda saída”, relata.

O tempo para manter os animais confinados no perímetro do circo estava se esgotando, já que no início daquela manhã, moradores do entorno sairiam de suas casas para trabalhar, e certamente, seriam atacados pelas feras. Lacerda então decidiu entrar em contato com o Zoológico de Sapucaia do Sul, como conta ele. “Ali já estavam no desespero. Ainda era madrugada, mas logo as pessoas iam sair para trabalhar.

Tomei o telefone e liguei pra administração do zoológico pedindo aqueles ‘dardos tranquilizantes. Riram da nossa cara. Afirmaram que aquilo só existia em filme. Ali vi que a bronca era grande e não tinha mais a quem recorrer. Quando dei a informação ao domador e os artistas do circo, todos entenderam o que precisaria ser feito. Sacrificar os animais”.

Recorte de jornal relata como foi a fatídica madrugada. Foto: Giro de Gravataí/Especial

Quem soltou?

A madrugada sombria daquela Gravataí de mil novecentos e oitenta e poucos se misturava, naquela altura, com a angústia e a incerteza da vida das três leoas, criadas desde pequenas por Élvio – o domador. As dúvidas também surgiam sobre a fuga dos animais. No recorte, a soltura de Cristina, Judite e Sofia (nome das leoas) foi atribuída a um homem identificado como ‘Bigode’. Ele teria rompido duas correntes e um cadeado das jaulas, após um desentendimento com o proprietário.

A desavença teria começado no interior do Estado. Conforme a narrativa, o homem havia pedido emprego por diversas vezes no circo, chegando a ser preso por importunar os animais. Prometendo vingança as administradores, seguiu até Gravataí, aonde naquela madrugada decidiu por soltar as leoas.

A morte

Élvio – o domador

De volta ao local, empunhando armas longas, por volta das 04h30 da manhã, Lacerda e outros policiais que ali estavam, fizeram o que nunca mais desejam repetir em suas vidas, como conta ele. “Voltamos ao batalhão, na época o 15º BPM – já não não existia o nosso em Gravataí, pegamos armas longas e voltamos ao local. O momento já era de tristeza, mas infelizmente não tínhamos mais saída.

Populares já transitavam indo para seus empregos e isso poderia terminar em tragédia. Foi então que efetuamos os disparos. Uma delas ainda caminhou alguns metros, mas tombou perto de uma vala, na subida da rua do Fórum. Não lembro ao certo, mas foram diversos disparos.  Logo ia amanhecer a as pessoas estavam correndo perigo. Foi muito triste aquela ocorrência. Se na época os órgãos tivessem nos dado um auxilio, acho que poderia ser diferente”, relembra Lacerda mostrando a única prova cabal do ocorrido, a reportagem da Zero Hora, que lhe foi enviada da fronteira por uma amigo pessoal anos depois do fato.

Minutos depois

Naquele dia, Gravataí despertou mais cedo, com o som dos tiros. Trabalhadores já passavam pelo local e tentavam entender o que havia acontecido, já que o cenário era de horror. Animais mortos, esfacelados nas imediações do Parcão. Élvio permaneceu por horas próximo das leoas, conforme conta a reportagem. “Foi o mesmo que tivessem matado um filho meu. Eu cuidava delas com carinho, chamava todas pelo nome”, contou chorando ao repórter Aldamir Santos, o primeiro e único presente em Gravataí naquela manhã fatídica.

Conforme o sargento, os animais mortos foram recolhidos e levados pelo proprietário do circo até a região da Caveira, aonde foram enterrados. A 1ª Delegacia de Polícia de Gravataí, a única na época, chegou a investigar o caso, mas nunca conseguiu identificar o homem de apelido “Bigode”.

Extra

Ainda na reportagem, o circo perdeu três leoas, dois pôneis e um cavalo, ficando um com prejuízo na época de um milhão de cruzeiros. Destaca-se no recorte – “Restam ao circo, agora, três leões, dois ursos, um gorila e um tigre”.

O circo ficaria em Gravataí por um mês, e faria sua estreia numa sexta-feira, dando inícios de que o fato pudesse ter ocorrido na madrugada de quinta.

Mais tarde descobriu-se que Élbio era dono de uma das leoas e dos dois pôneis. Ele era funcionário do circo há cerca de sete anos e ganhava R$ 40 mil cruzeiros.

Existem rumores de que os animais foram enterrados em uma área descampada ao lado da antiga Icotron.

Luis Antônio Lacerda trabalhou por vinte anos na Brigada Militar (BM). Residente em Gravataí, vive hoje aposentado.

Você lembra de alguma história como essa na cidade? Envie para nós através do Whatsapp da redação (51) 99233-5810. 

Veja também: Um manicômio abandonado na parada 106? 

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